Quinta feira fui a cinema. Meti-me sozinha numa sala escura no inicio da tarde e fui ver um Homem Singular .... gostei muito: da imagem, dos pormenores da história. No fundo a história de um homem cansado de viver sem o amor da sua vida e que vive o ultimo dia da sua vida....
Ontem, sábado dia 27, no meio da tempestada, eu tive o meu dia singular, digamos que o meu diz infeliz. De manha ainda fui ao ginásio (sim, fresquissimo em folha) e dei umas braçadas.... de tarde vim pra casa e o meu marido e filho nao estavam.... por isso pude fazer asneiras: comer batatas fritas, um gelado de chocolate, beber um baileys, e chorar... e chorei muito,muito, muito... tanto como nunca chorei na vida, chorei pelo meu anjo Gabriel (é assim que lhe chamo), pela injustiça da vida, pelas saudades que tenho de estar grávida, pela irritação que tenho de ninguém me compreender. Chorei porque me apercebi que isto nao passa do dia pra noite... nem vai passar. A dor de o perder vai estar sempre cá... e o facto de não saber porque o perdi nao ajuda nada! As vezes ainda estaciono nos lugares para grávidas, e depois caio na real.
Depois vi o Match Point e acalmei... e depois chorei outra vez.... e bebi mais 2 baileys e comi mais quadradinhos de chocolate....
Concluí que nao o vou esquecer e que ele vai ser sempre o meu filho.... qd chegar a Junho vou chorar novamente porque era aí que o ia ter.... e acho que vou chorar toda a vida.
Entretanto tenho sido má mãe e má esposa... o meu filho tem dormido mal.... talvez poque nao lhe ande a dar a mesma atenção.
Agora que tive o meu dia infeliz vou voltar á rotina normal: trabalhar 5 dias /semana, para 2 dias, chegar tarde a casa, nao ter tempo para ir o ginasio, discutir, e quem sabe poder voltar a sorrir e a fazer planos... quem sabe o sol não vem um destes dias, porque estou tao farta de chuva e dias cinzentos! Quem sabe nao emagreço e quem sabe nao volto a ser feliz!
Quem sabe daqui a uns 6 mesitos nao engravido de gemeos.....(eu adorava ter um menino e uma menina).... quem sabe vou deixar de olhar para as fotos do antes e dizer: "olha quando eu era feliz"....
e quem sabe as pessoas entendam que tive de passar por tudo isto, em vez de dizerem: vai trabalhar que te faz bem para parares de pensar em tudo isso, isso vai passar, não é o fim do mundo, etc etc... eu acho que temos de pensar e deitar pra fora....
e agora é preparar a festa do 2º aniversario do meu piolho.....
Tudo me arrasta para a frente. O meu filho, o meu marido, a minha familia, os meus amigos.
Todos me dizem que sou feliz, que vou ter outro bebé, que foi melhor assim, etc etc .... e acreditem: eu sei!
Mas todos me impedem de me sentir infeliz por inteiro, porque fazem todos os esforços para agradar.... e eu preciso, para depois poder ser feliz. Por eles tento ser super mulher... e por eles vou acabar por nao conseguir ter o meu dia infeliz! Por tentar lutar tanto por eles!
Preciso de um dia infeliz.... daqueles de bebedeiras de caixão á cova, só eu, um copo, muito mau tempo, gritos, choros, mar, musica melancólica, lembranças, medos, tudo.... preciso de um dia só meu onde possa fazer tudo isso!
Mas nao me deixam... e a infelicidade em vez de ir embora vai-se acumulando e transfigurando em forma de mau feitio, falta de paciencia para com todos onde incluo as birras do meu filho, vontade de explodir sempre contida.
Fsssss...... deixem-me ser infeliz.... levem-me o miúdo por um dia, deixem-me sozinha, nao me chateem... e depois ....
depois....voltem todos para me mimar, façam-me surpresas, marquem jantares, digam que eu sou fantastica, levem-me a dançar, digam que me amam.... que sou forte, a melhor pessoa do mundo, que vou ter mais um filho lindo e fantastico, que sou boa amiga,boa filha, boa esposa boa mãe.... mas agora....
Sei que tenho de andar pra frente, mas sabem que mais? O que eu precisava mesmo era de quem me compreendesse mas sem a sugestão de andar pra frente, quem me deixasse chorar, quem entendesse que eu tenho direito a estar em baixo, sem palavras que eu preciso ouvir, mas que as sei!
- 23 meses que nasceu o meu filho, que eu amo mais que tudo no mundo; - 3 semanas e um dia que perdi o meu 2º filho; - 2 dias que nao choro; - 4 semanas e 2 dias que nao rio; - 36 anos, 4 meses e 8 dias que nasci;
Sem números redondos espero que faltem:
- muitos anos para eu viver; - pouco tempo para ter um 2º filho; - apenas um dia para eu rir de novo; - muito tempo para eu chorar;
Para além do meu filho que amo mais que a vida, e que passa a vida a dizer a palavra mãe com muito muito carinho e amor...tenho 2 novas companhias que tornam o passar dos dias menos dificeis:
-Isabel Allende, de quem devorei o ultimo livro "A ilha debaixo do mar", em 3 dias
-Marisa Monte, de quem não me canso de ouvir, pelo seu talento e voz doce!
Sei bem que sou economista e que me devia preocupar com o futuro (????) deste país, mas sinceramente, deixem-me ter o meu momento.... o momento de explosão, de pensar em mim e de gozar o meu filho... e os meus gostos, sejam eles comuns ou não.
Não ando propriamente animada com a vida, nem a acho minimamente justa, mas é a que eu tenho... sei que preciso cuidar de mim, ficar mais bonita, mais divertida para ser feliz e para ter forças de procurar outro filho: o 3º !
Obrigada caras Isabel (nome giro, hein) e Marisa pela companhia alegre que me proporcionam!
Assim que tiver tempo procurarei outra paixão: a dança... que me liberta....
Para já quero sol, passear no mar, beber uns copos (embebedar-me aliás), curtir e minha futura casa, o meu filho e o me marido.... e chorar, chorar, até explodir e deitar tudo cá para fora...
Foi um ano dificil De glorias e momentos bem vividos De afectos de amores compreendidos Da prenda mais linda de todas: um filho!
Foi um ano diferente De estados de espirito cansados De noites sem dormir, afectos trocados Do maior desafio de sempre: um filho!
Foi um ano vivido Da descoberta de ser pais, da emoção De que o mundo roda á volta desta acção Do maior amor do mundo: Um filho!
Foi um ano dificil, diferente, vivido, sentido Tivemos um filho, estamos unidos, o amor continua Mas 2008 tem apenas um nome O do nosso filho : Rodrigo!
Dizem que o tempo cura tudo! Eu não acho que o tempo cure, acho que ha coisas que nunca curam... as feridas vão fechando, mas o relógio fica lá.... fica sempre uma pequena cicatriz que em certos momentos pode reabrir.
Às vezes pensamos que estamos curadas e nao estamos. Por exemplo... faz hoje 15 dias desde que perdi o meu anjinho e tenho andado aparentemente bem! Tem dias que até consigo rir e ter esperança, mas existe um sintoma péssimo: tenho comido imenso, só me apetece comer a todo minuto, neste momento devoro um gelado, e isso, meus amigos, é sintoma de depressão. E por isso ontem chorei, chorei e comecei a ter medos estranhos.... medo de perder o filho, o marido... medo de engravidar de novo, medo de enfrentar as pessoas. Hoje continuo com esse medo....
Mas como vos disse... o tempo acaba por ser amigo e ajudar a curar... mas não cura... só esconde a ferida!
E por isso aqui vai um poema meu, que escrevi algures, mas que pode servir para hoje...
Tempo sem tempo, sem hora marcada Que voa, desliza sem medo de nada Que corre apressado, sem nada falar E passa por todos, como que a gozar!
É ele que dita o tempo a viver Como marionetas ficamos a ver O tempo sem tempo sem hora marcada Vivemos a vida sem saber de nada!
E goza, gargalha vendo-nos correr O tempo que gira sem nada querer Segundo, minuto, hora, dia, ano Ponteiro a ponteiro, sem azo a engano…
O tempo que é tempo sabe-se infinito Murmúrio, sorriso, choro, pranto, grito É tempo sem tempo sem hora marcada Que passa, envelhece, de forma apressada!
Talvez pelo que sinto hoje, pelo vazio que em mim ficou após a perda de um filho ás 18 semanas, pela vontade de desabafar, de me exprimir, de expressar sentimentos; talvez porque possa ter muito a dizer e nem o saiba ainda; talvez porque seja mais que o que penso que sou; talvez porque queira falar convosco; talvez porque possam querer falar comigo; talvez porque, apenas, preciso....
criei este blog!
Nele espero escrever de tudo... desde poemas, pensamentos, ideias, receitas, medos, confidencias, receios, sugestões, criticas, modos de ver, opiniões, crónicas, reportagens....